Polícia apura se erro médico levou à morte de paciente com covid-19 – Correio Braziliense

Familiares e amigos de Ana se reuniram em frente
Familiares e amigos de Ana se reuniram em frente unidade de sade para protestar, na tarde desta sexta-feira (12/6) (foto: Arquivo pessoal)

Uma suspeita de erro mdico levou uma famlia do Entorno a denunciar, na quinta-feira (11/6), o Hospital Regional de Santa Maria (HRSM) e o Hospital Regional da Asa Norte (Hran) por suposta imprudncia no atendimento de uma paciente.

Ana Barbosa Pinto, 56 anos, passou pelas duas unidades de sade na ltima semana, com sintomas de covid-19. No entanto, a declarao bito dela aponta que a morte ocorreu devido a um quadro cerebral. Segundo familiares, Ana teria recebido a injeo de um medicamento na coxa, e isso teria provocado a reduo do fluxo sanguneo no crebro, bem como um edema no rgo e o acmulo de ar na cavidade intracraniana. 

A famlia registrou em udio o momento em que trs profissionais do HRSM anunciaram a morte da paciente. Na gravao, um mdico admite que o fato resultou de um erro no procedimento, devido a informaes que teriam sido prestadas de forma incorreta.

Ana Barbosa Pinto morava no Jardim C
Ana Barbosa Pinto morava no Jardim Cu Azul, em Valparaso (GO), com o marido, uma filha e uma neta (foto: Arquivo pessoal)

O caso tambm gerou indignao por parte dos parentes de Ana pela diferena nos resultados de exames para deteco do novo coronavrus e pela suspeita de desligamento dos aparelhos — em decorrncia de morte cerebral — sem aviso aos familiares. O corpo da paciente foi encaminhado ao Instituto de Medicina Authorized (IML) para exames periciais, e a 33ª Delegacia de Polcia (Santa Maria) apura o caso.

Transferncias

Em 29 de maio, Ana foi levada para um hospital municipal de Valparaso (GO), onde morava, com sintomas respiratrios havia quatro dias, bem como glicemia e presso altas. Isolada em uma sala para pessoas com covid-19, ela fez o exame PCR, para deteco do novo coronavrus, cujo resultado deu negativo. Mesmo assim, devido ao quadro, a paciente foi transferida para o Hospital Regional da Asa Norte (Hran).

Ana Barbosa Pinto foi levada para o hospital em 29 de maio(foto: Arquivo pessoal)
Ana Barbosa Pinto foi levada para o hospital em 29 de maio (foto: Arquivo pessoal)

Na unidade de sade, Ana passou por novo teste para deteco da covid-19, pedido aps a avaliao de uma tomografia. “Pela situao do pulmo, o mdico disse que sabia que ela estava com covid-19. Queriam transferi-la para o (hospital de campanha do) Man Garrincha, mas nem tinham feito o exame de sangue ainda. Ela acabou entubada e levada para o Hospital Regional de Santa Maria. Nesse perodo, saiu o resultado do exame feito no hospital de Cu Azul, que deu negativo”, relatou o pastor Getlio Barbosa, 34 anos, filho de Ana.

O resultado do exame feito no Hran saiu dois dias depois e detectou a doena. Ana passou alguns dias internada no HRSM, sedada, entubada e com quadro associado a problemas respiratrios e nos rins. A equipe do hospital informou famlia que ela dava leves melhoras com o tempo. Mesmo assim, ela no reagiu bem primeira tentativa de corte dos sedativos. 


Na segunda vez, Ana no acordou mais. “O mdico disse que teria de fazer outra tomografia, pois suspeitava de uma leso no crebro. Ele perguntou se ela tinha sofrido algum acidente e eu disse que no. No dia seguinte, ligaram me pedindo para ir ao hospital para conversar. Percebi que minha me tinha morrido”, disse Getlio.


“Um mdico, uma psicloga e uma outra mulher, que no sei se period mdica ou enfermeira, falaram que, quando minha me foi transferida do Hran, aplicaram uma injeo na coxa dela. E essa injeo foi errada. Deu uma bolha, que subiu para o crebro. O mdico disse que foi um erro e, quando perceberam, o crebro dela tinha parado”, completou o filho de Ana. “No fim, a psicloga pediu desculpas e nos disse para procurar nossos direitos.”

Apurao

Na declarao de bito, alm do quadro cerebral, covid-19, insuficincia renal aguda e embolia gasosa constam entre as seis causas da morte. Getlio acrescentou que, na madrugada de quinta-feira, o irmo dele visitou a me e observou que ela permanecia viva com o auxlio de aparelhos, mas que o crebro estava parado. “Parou devido a esse erro. A questo que colocaram na certido de bito que a morte aconteceu no dia anterior (quarta-feira), s 21h. Ento, eles haviam assinado o (atestado de) bito antes de desligar os aparelhos”, afirmou Getlio.


Ana morava no Jardim Cu Azul, em Valparaso (GO) — a 37 quilmetros do centro de Braslia —, com o marido, de 69 anos, uma filha e uma neta. Alguns dias antes de ela ser levada para o hospital municipal, a me da paciente veio da Bahia para cuidar da filha. A famlia espera que a Justia possa resolver o caso. “Se nossa me viesse a morrer, espervamos que fosse por uma questo respiratria, ou por diabetes, presso alta. Mas a causa foi cerebral. Temos muitas provas de que houve um crime. Foi uma morte injusta”, criticou Getlio.

O delegado-adjunto da 33ª DP Paulo Fortini confirmou que uma ocorrncia foi registrada em relao a esse caso e que, agora, a polcia aguarda o laudo do IML para poder traar a linha de investigao. “Foi instaurado um inqurito policial para analisarmos a procedncia (do caso): se houve erro mdico, ou se foi um fato do dia a dia. A paciente apresentava alguns problemas, tinha algumas comorbidades. Ela estava passando mal, foi internada e o depoente contou a histria de que poderia ter havido erro mdico. Um inqurito foi instaurado e, por envolver hospital, mdicos, enfermeiros, temos de ir com muita cautela”, destacou Fortini.

O investigador disse que ainda no h information para concluso do laudo da percia. No entanto, o documento permitir contrastar informaes com base no que consta nos pronturios mdicos da paciente no HRSM e no Hran. “Vamos ver as anlises mdico-hospitalares que foram feitas e verificar se foi, de fato, caso de imprudncia ou negligncia. Mas no temos como afirmar nada disso ainda”, reforou o delegado.

Protocolos

Em nota, o Instituto de Gesto Estratgica de Sade do Distrito Federal (Iges-DF) informou que Ana foi transferida para o Hospital Regional de Santa Maria, em 31 de maio, em estado gravssimo, com covid-19, insuficincia respiratria, entubada e com auxlio de ventilao mecnica.

“A paciente de 56 anos tinha diversas comorbidades, como doena pulmonar obstrutiva crnica, hipertenso e diabetes. Ela recebeu o atendimento adequado no HRSM, mas, em 9 de junho, houve suspeita de morte cerebral e foi iniciado o protocolo de morte enceflica, que confirma com exames e anlises clnicas o bito”, afirmou a instituio gestora do hospital.

Ainda segundo o Iges-DF, a equipe de sade “seguiu todos os protocolos do Conselho Federal de Medicina (CFM) para os casos de morte enceflica”. “O HRSM est disposio para prestar quaisquer esclarecimentos famlia”, disse o texto.

A Secretaria de Sade do Distrito Federal (SES-DF) se posicionou a respeito do caso: “A direo do Hospital Regional da Asa Norte esclarece que a paciente em questo fora encaminhada ao HRSM em 31/5, com insuficincia respiratria por covid-19, sem nenhum sintoma neurolgico. Ela foi entubada e regulada para UTI”.

Alm disso, a pasta comunicou que “todas as medicaes usadas so padronizadas mundialmente e no houve qualquer intercorrncia nos procedimentos invasivos”. “Infelizmente a covid-19 pode acometer o sistema nervoso central e ocasionar danos inesperados. Como a possibilidade de morte cerebral s foi aventada em 9 de junho, a equipe do Hran no tem como contribuir sobre o caso”, destacou o o texto.


O Correio abriu espao para que a Secretaria Municipal de Sade de Valparaso (GO) tambm se manifeste, mas ainda no teve retorno.

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